Entrevista: André Lopes – “Straight Edge”

Demorou mas lá se conseguiu preparar esta entrevista!

O vocalista de Killing Frost, André Lopes, acordou em responder a algumas perguntas sobre o Straight Edge (ao qual se identifica à já alguns anos) e dar a sua opinião em temas que todos nós já estamos habituados.

Para ti o que significa/representa o straightedge?
Para mim o straightedge é, como sempre foi, nada mais que um estado de espírito. É uma decisão pessoal que deve somente reflectir a escolha de um individuo e não a pressão de querer pertencer a um grupo, seja ele qual for. Ao contrário de muitos, não vejo o straightedge como uma arma ou força rebelde porque ambas são de certo modo descabidas se tivermos em conta a escala do movimento em que se inserem. Não fumar, não beber e não tomar drogas são decisões complicadas num mundo onde quase tudo gira à volta disso. A sociedade faz questão de, até certo ponto, marginalizar socialmente as pessoas que não praticam nenhum dos três hábitos referidos acima e como tal, assumir a ideologia straightedge faz com que nos tornemos numa ovelha negra num mundo de carneiros que se seguem mutuamente. Ser straightedge é ter força suficiente para aguentar a pressão que isso trás e continuar convicto. É relativamente triste ter noção que a maioria das pessoas não se consegue divertir sem estar sob a influência de substâncias artificiais e pior ainda é ter noção que dessa maioria, grande parte o faz apenas porque os amigos o fazem. As consequências disso são visíveis e constantemente divulgadas nos blocos noticiosos e páginas de jornal numa base diária. Eu prefiro dizer não a essa fantochada toda e viver a minha vida por mim, sóbrio.

Achas que muitas vezes é usado apenas como estatuto?
Definitivamente, e até certo ponto não censuro isso embora ache que haja limites para tudo. Ser straightedge não faz indivíduo A melhor que indivíduo B só porque diz não às drogas. Infelizmente há quem realmente viva com esse tipo de mentalidade e critique todos os que são diferentes dele. Pior ainda há quem tente convencer qualquer pessoa que assim não o seja a ser straightedge. Acho isso ridículo por demais e tenho-o como uma realidade bem distante daquilo que é a minha visão sobre o straightedge, “convencer” alguém a ser straightedge vai contra aquilo que o straightedge é suposto ser em primeiro lugar: uma escolha pessoal.
Não directamente ligado com estatuto mas algo que também acontece muito na cena hardcore são os miúdos (e graúdos) que se “escondem” por trás do X para impor regras e se fazerem passar por algo que não são, mostrarem-se ao mundo como pregadores deste modo de vida como se fossem o Papa. Como disse acima, ser straightedge é, ou deve ser, uma decisão estritamente pessoal e não uma religião. Felizmente, como diziam os Terror, “the loudest are the first to go”.
Para alem destes há também os que se assumem como straightedge mas não vão a concertos, ouvem pouco hardcore e dificilmente compram um disco. Curiosos também os que se estendem muito sobre o assunto quando online mas raramente são vistos na sala de concerto. Todos esses não passam de marretas.

Existem casos de bandas auto-intituladas de straightedge mas que ao fim de algum tempo o deixaram de o ser. Achas que esse “título” é por vezes usado como forma de marketing?

Não necessariamente. Creio que ser straightedge e experimentar viver sem recurso a drogas faz parte da vida de muitos jovens que se identifiquem com o hardcore. É mais que normal que a certa altura se sintam no topo do mundo graças a isso e decidam fazer uma banda que expresse aquilo que sentem. Igualmente normal é passado algum tempo descobrirem que se estavam a enganar a eles próprios e partam para outra. Quase todas as grandes bandas straightedge deixaram de o ser nalgum ponto da sua carreira. A realidade é que o straightedge não é, de facto, para qualquer um (no sentido que é muito mais fácil deixar de ser do que continuar) e não nos cabe a nós julgar as decisões dos outros. Pelo menos desde que a música seja boa!

Quais são as bandas que para ti representam melhor o straightedge?
As que a brincar, levavam o straightedge demasiado a sério: SS Decontrol, DYS, Project-X e Judge. São letras como as dessas bandas que me lembram porque é que não quero pertencer ao rebanho para o qual somos atirados todos os dias.
Em relação a bandas mais modernas, e são poucas as que oiço, abomino toda e qualquer banda que romantize o straightedge e aquilo que é sê-lo. A frase abaixo espelha bem a minha visão sobre o assunto.

I see no good in my mind getting fucked, a needless vaccuum and I won’t be sucked” – DYS (1983)

O straightedge está directamente ligado ao hardcore como se sabe, pessoal que vive igualmente este dia-a-dia de abstinência mas não conhece o meio e toda à história que está por de trás deste estilo de vida pode ser considerado straightedge?
Não. Ser straightedge não é o mesmo que não tomar drogas, não fumar ou não beber embora muitas pessoas confundam isso e julguem o contrário. Embora fuja um pouco à tua questão, entenda-se que o straightedge faz parte da cena hardcore e vai sempre estar directamente relacionado a ela por muito que o tentem promover na imprensa ou na televisão como sendo uma “opção de vida alternativa”. Já tive hipótese de ver várias dessas tentativas de promoção a uma escala maior e compreensivelmente todas elas falharam ou passaram despercebidas sem grande burburinho. Tanto o hardcore como o straightedge (note-se que estou a falar de hardcore na sua forma original) estão destinados a nunca sair do anonimato por serem demasiado específicos e longe de fácil compreensão pelo público em geral. Foi no underground que nasceu e é lá que há-de permanecer por longos anos.
Voltando à tua questão, se a razão principal para não se consumir drogas não for o envolvimento com o movimento e a cultura hardcore então creio que é explícito que nada tem a ver com straightedge.


As grandes bandas da década de 80′ que representavam o straight edge já há “muito” que terminaram. Achas que hoje em dia o feeling, a simplicidade e sobretudo a mensagem mais directa (e não tão abstracta como as bandas da actualidade) se tem vindo a perder?

Depende, há bandas e bandas. O problema nos dias que correm é que há tantas bandas que é difícil encontrar a agulha no meio do palheiro. Mas ela está lá para ser encontrada, hoje em dia faz-se algum bom hardcore com uma mensagem actual embora não em tão grande escala como se faz mau hardcore com uma mensagem passada, chata ou desfasada da realidade. A Internet permite uma divulgação rápida e sem filtros de tudo o que se produz e isso tem tanto de bom como de mau mas voltando ao assunto, creio que haja bandas que continuam a divulgar o straightedge com o mesmo sentimento, simplicidade e energia que ele merece, ainda que grande parte delas não se esforce para fazer e dizer mais do que já foi feito ou dito anteriormente. O que acho que falta nos dias de hoje é o factor provocatório e arrogante do straightedge que muito marcou os anos 80 e que para sempre há-de estar ligado ao straightedge devido ao seu carácter e origem. Enquanto nós continuarmos a carregar a tocha, o straightedge há-de se manter forte e vigoroso como até agora. Só é preciso não deixar de acreditar porque a mensagem principal é passada por nós nas nossas atitudes e postura em relação ao mundo e não de qualquer outra forma.

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6 Respostas to “Entrevista: André Lopes – “Straight Edge””

  1. M. Says:

    Este André fala bem!

  2. hermano Says:

    marretas!!!!!

  3. A Constant Refrain Says:

    nice

  4. Cátia Silva Says:

    bela entrevista :)’

    na minha opiniao , as pessoas hoje em dia criticam tudo e mais alguma coisa ! E , aqueles qe se sentem inferiores , tentam ‘copiar’ atitudes dos que são populares . No entanto , acho que a sociedade está a mudar. Em que cada um deve ter os seus valores e deve defende – los , independentemente da opinião de terceiros.

  5. WALKtheWALK Says:

    gostei de ler e está aqui um excelente registo sobre o sxe, próxima vez que falar sobre sxe com alguém (fora ou dentro do hardcore) vou redireccionar a pessoa para esta entrevista :).

  6. limpa_vias Says:

    granda iniciativa gonçalo! sim sr! e o andré falou bem!

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